Segunda-feira, 11.02.13

Aconteceu numa festa de Carnaval

Ele tinha pensado muito sobre o assunto. Deveria ir vestido de Flash Gordon ou de Indiana Jones? O primeiro estava um bocado fora de moda, o que era bom pois assim não haveria outros mascarados iguais. Já Homens-Aranha, Batmans e Darth Vaders iria haver aos montes, estão sempre na moda.

Indiana Jones era uma opção forte, devido ao chicote. Dá sempre jeito um chicote numa festa de Carnaval, embora no caso dos homens fosse necessário alguma prudência, pois as pessoas admitem que uma mulher chicoteie homens, mas o contrário nem sempre é bem aceite. 

De repente, lembrou-se: podia ir de Christian Grey, o famoso herói das "50 Sombras de Grey"! Assim estava na moda e podia levar chicote! Aliás, podia mesmo chicotear, pois ao herói literário do ano tudo era permitido, incluindo dar palmadas no rabo das senhoras. Que melhor máscara de Carnaval do que essa?

O pior foi que, quando chegou à festa, descobriu que existiam imensos Christian Greys como ele. Havia quase tantos como mascarados de animais. Se somasse os elefantes com os gorilas, os macacos e os Rei Leões, todos juntos eram um pouco mais que Christian Greys, mas andavam lá perto. 

No meio da festa, viu passar um Flash Gordon, impecável no seu fato encarnado e amarelo, e arrependeu-se por querer estar tanto na moda. Foi a correr ao bar, tentar afogar as mágoas em vodka, mas foi ao balcão que tudo mudou, quando viu a Pequena Sereia. Tinha um sorriso radioso, escamas no corpo todo e parecia perdida naquele oceano de fantasias compradas em lojas chinesas.

Então, ele aproximou-se e disse-lhe:

- Sempre quis conhecer uma Sereia.

Ela arqueou as sobrancelhas, surpreendida:

- Desculpa?

Ele explicou que ela estava vestida de Pequena Sereia, era esse o filme a que ele se referia. Ela desatou a rir e explicou que não estava de Pequena Sereia, mas sim de Dolly, a amiga do Nemo. 

Ele corrigiu-a:

- Dory.

Ela piscou os olhos:

- Desculpa?

Ele explicou:

- Chamas-te Dory e não Dolly.

Ela riu-se muito e disse:

- Isso...Sabes, é que eu sou muito esquecida, uns segundos depois já não me lembro do que disse...

Ele percebeu finalmente que ela estava a brincar com ele, o que era um bom sinal, e então perguntou:

- E eu, de que é que estou vestido?

Ela olhou-o muito rapidamente e perguntou:

- Trouxeste o avião? 

Ele ficou por momentos sem perceber e então ela revirou os olhos e explicou:

- O que distingue o Christian Grey dos outros é o avião, não é o chicote. Chicote qualquer um arranja, agora um avião é mais difícil. 

Ele ficou a olhar para ela, e depois deu um gole no vodka, tomou coragem e disse:

- Por acaso, estava a pensar num voos nocturnos. Uns loopings, e coisas assim...Gosto especialmente dos voos picados... À noite, são momentos espectaculares...

Ela olhou para ele, espantada. Abriu muito os olhos e perguntou:

- E espirais invertidas, sabes fazer?

Ele sorriu-lhe e disse, em voz mais cavada:

- Especialmente em voos rasantes...

No dia seguinte, quando ele saiu da casa dela, ia contente. Acertara em cheio na máscara, o Christian Grey fora infalível, tiro e queda. 

Já ela, quando acordou, não se lembrava de nada. 

publicado por Domingos Amaral às 10:52 | link do post | comentar | ver comentários (1)
Quinta-feira, 27.09.12

Um casal e as 50 sombras de Grey

Estavam lado a lado, na cama. Ela lia as "50 Sombras de Grey", ele consultava o seu iPad. De vez em quando, ela suspirava, mas ele nem ligava, pois sentia que já não existia entre eles muito "chamego", como diz a Zarolinha da telenovela Gabriela. Continuaram assim, ela a ler e a suspirar, ele a ver páginas sobre gadgets na net.

Algum tempo depois ela pousou o livro à cabeceira, murmurou um "boa noite" que ele retribuiu, desligou a luz do seu candeeiro, e enrolou-se para dormir, virando costas ao marido. Este deixou-se estar, mas dez minutos depois pressentiu que ela já estava ferrada a dormir e começou a visitar sites pornográficos no seu iPad. Num deles, descobriu uma loira espectacular, de grandes pernões, seios volumosos e um sorriso malandro na cara. Sentiu a excitação a chegar e levou a mão ao baixo ventre. 

Precisamente nesse momento, a mulher soltou um gemido. Não foi um gemido qualquer, era um gemido parecido aos que ela soltava quando...Foi por isso que ele franziu a testa, surpreendido. Segundos depois, ela voltou a gemer. Ele reparou também que ela mexia a perna esquerda ligeiramente, e que tinha o punho esquerdo fechado. Aquilo enervou-o.

Num gesto brusco, pousou o iPad fechando a capa, tocou-lhe nos ombros, abanou-a, e ela acordou, estremunhada. Piscou os olhos e olhou para ele:

- O que foi?

- O que foi pergunto eu! - exclamou ele, com ar sério.

Ela piscava muito os olhos, sem perceber.

- O que eram esses gemidos? - perguntou ele.

Ela sentou-se na cama, ainda a piscar os olhos.

- Gemidos? Que gemidos?

Ele imitou-a, num tom de voz forçado e ela sorriu e mentiu.

- Eu..., eu estava a ter um pesadelo.

Ele indignou-se:

- Desculpa lá, mas isso não era um pesadelo! 

- Então? - perguntou ela, com ar inocente.

Ele respirou fundo, tentando controlar-se:

- Tu estavas a ter um sonho erótico! Parecia que estavas a ter um orgasmo!

Ela abriu muito os olhos, deu uma pequena gargalhada, quase infantil, de menina apanhada em contrapé, e reconheceu a verdade.

- Pois estava!

Ele ficou ainda mais enervado. Ela percebeu o que ele temia e tentou acalmá-lo, com mais uma mentirola.

- Mas...o sonho era contigo! 

Ele esperou, em silêncio, um esclarecimento mais detalhado.

- Estávamos a fazer amor...Eu estava de joelhos no chão e tu puxavas-me os cabelos por tráz, e possuías-me...

- Eu? - perguntou ele.

- Sim, tu...e davas-me palmadas no rabo!

Ele ficou siderado, estupefacto a olhar para ela.

- Estava a ser bom... - murmurou ela.

Ele sentiu os primeiros sintomas de apoplexia, e gritou:

- Mas eu nunca te bati! Nem nunca te puxei os cabelos!

Ela revirou os olhos, exasperada. Ele prosseguiu, exaltado:

- E como é que sabes que era eu? Segundo percebo, estavas de costas, não era?

- Sim - confirmou ela

- Então, podia não ser eu!

Ela revirou de novo os olhos, encolheu os ombros e mentiu outra vez:

- Por favor, achas que eu não sei se és tu?

Na verdade, ela não tinha a certeza. No seu sonho, parecia que quem a possuía era o herói das "50 Sombras", o Grey. Mas como ele era um herói imaginário, a quem ela não conhecia a cara, podia muito bem ser quem ela quissesse.

Mas ele não estava convencido. 

- Se calhar era o Pedro, o teu ex, de quem gostavas tanto! Ou o teu chefe, toda a gente sabe que isso acontece a muitas mulheres!

Ela voltou a revirar os olhos, o seu chefe era gordo e baixo, e o Pedro há meses que não lhe enviava sequer um sms...

- Isto é do livro... - suspirou ela.

- O quê? - perguntou ele, sem perceber.

Ela pegou no livro "As 50 sombras de Grey" e mostrou a capa ao marido.

- É muito intenso, cheio de sexo, ao pormenor...

O marido estava de novo perplexo. Então ela, num gesto brusco e sem que ele a conseguisse impedir, pegou no iPad que estava pousado ao lado dele e disse:

- Li outro dia uma crítica, dizia que era "pornografia para mamãs", vou procurar na net para te...

Ao levantar a capa do iPad, ela descobriu a foto da loira explosiva e mamalhuda. Ficou paralisada. Depois, virou-se para ele:

- O que é esta merda? Andas a ver sites pornográficos? 

Atrapalhado, ele tentou justificar-se, meteu os pés pelas mãos, balbuciou uma mentirola qualquer.

Ela levantou-se da cama, irada. Nesse momento, umas das alças da camisa de noite tombou sobre o seu ombro e desceu pelo antebraço, deixando à mostra uma parte do seu peito. Ele viu o disco do mamilo dela a aparecer e gostou.

Mas ela estava furiosa.

- Mas o que é isto? Quem é esta gaja, esta badalhoca de perna aberta?

Ele tentou pacificá-la:

- Isso não interessa, é só uma fotografia. Essas gajas são todas iguais, cheias de mamas falsas, é só silicone...Não são como as tuas, bonitas e naturais...

Ela acalmou ligeiramente, mas não quis dar o braço a torcer.

- Eu não acredito nisto, és um porco!

Ele encolheu os ombros, sorriu-lhe.

- Vá lá, não fiques assim. Tu estavas a ler um livro, eu a ver a net, cada um para seu lado, aconteceu, não tem significado especial...Vem cá. 

Estendeu-lhe a mão, e ela, com alguma relutância, estendeu a dela. Voltou à cama, embora ainda com cara de amuada.

Ele abraçou-a, beijou-a no ombro e depois na boca e disse:

- És muito melhor que qualquer dessas mulheres...

Desceu os beijos para o pescoço e depois para o peito dela, excitado. Ela murmurou:

- Cuidado, os miúdos podem ouvir...

Ele levantou-se e foi fechar a porta do quarto. Entretanto, ela pegou no iPad. A loira da fotografia deu uma volta sobre si própria, enquanto o ecran virava de vertical para horizontal. Ela fez desaparecer a galdéria num segundo, e procurou um wallpaper novo para o desktop, um fundo mais apropriado. Depois, apagou a luz do lado dele e o quarto tomou uma tonalidade vermelha, picante e sensual. Ele murmurou:

- Uau...esse livro...

Começaram a tocar-se, a amassar-se, a rolar pela cama. Quando estavam já nus, e ele se preparava para entrar dentro dela, perguntou:

- Como é que era o teu sonho?

E ela explicou-lhe.

 

 

 

 

 

publicado por Domingos Amaral às 11:49 | link do post | comentar | ver comentários (4)
Terça-feira, 11.09.12

As 50 sombras de Grey (episódio 3)

Os pontos fortes de "As 50 sombras de Gray" são os e-mails trocados entre os dois personagens. São muito bem escritos, divertidos, intensos, cheios de pormenores notáveis, e só por isso acho que o livro vale a pena ser lido. Por isso e também pela cena das palmadas no rabo. Sim, há muitas cenas de sexo, umas mais habituais - na cama, na banheira - outras mais originais - no quarto escuro, com cabedais e chicotes - mas a cena mais divertida e bem escrita é para mim a das palmadas no rabo. A meio do livro, sentado na cama do quarto dela, Grey executa o seu primeiro castigo a Anastasia dando-lhe dezoito palmadas nas nádegas, uma a uma. Mas a execução é feita de forma a não doer demais, e até a excitar fortemente a rapariga. É divertido, eu diria mesmo hilariante, e uma pessoa fica verdeiramente convencida que o sexo e a violência podem andar lado a lado e ninguém deixar de gostar. Para mim, essa é a cena mais genial, e não precisou de ser especialmente "kinky" ou mostrar Grey como um "tarado sexual". Bastaram umas palmadas de mão aberta naquele rabo giro e temos o sucesso literário do ano!  

publicado por Domingos Amaral às 12:15 | link do post | comentar | ver comentários (4)

As 50 sombras de Grey (episódio 2)




Acabei ontem à noite a leitura de "As cinquenta sombras de Grey" e deixem-me dizer que percebo perfeitamente o sucesso do livro. No fundo, tudo se resume a isto: as mulheres adoram o desafio de "mudar um homem". As mulheres olham para nós como uma espécie de homens das cavernas, uns seres animalescos, um bocado abrutalhados, e que elas têm a certeza que, com ajudinha feminina, se tornariam em pessoas muito melhores e mais correctas. Sim, elas apaixonam-se por nós, com os defeitos e as lacunas, as taras e as manias, as falhas e as limitações, a acham sinceramente que elas, com os seus talentos, serão capazes de nos mudar. É assim com Grey, que Anastasia tem a certeza que vai conseguir mudar. "Ele tem lá as suas taras, gosta de dar palmadas nas mulheres, chicotadas e fiveladas, mas no fundo é bom rapaz, e eu vou ser capaz de mudá-lo", é isso que a rapariga pensa desde o início, mesmo sabendo que é difícil. Para tal, até está disposta a ir com ele para o Quarto Vermelho da Dor, pois às vezes é preciso as mulheres serem manhosas e fazer de conta que estão a fazer o que gostam, dando de caminho a ilusão ao homem amado de que estão a fazer o que ele gosta, para no final o conseguirem mudar e acabarem com aquele disparate dos cabedais e das algemas. Eu por mim acho bem, é importante que as mulheres pensem isso, mesmo que no fim a maioria delas se desiluda...Assim como assim, sempre tiveram bom sexo, não se podem queixar demais!  

publicado por Domingos Amaral às 11:57 | link do post | comentar | ver comentários (4)
Segunda-feira, 10.09.12

As 50 sombras de Grey (episódio 1)

As mulheres gostam de homens dominadores? É uma pergunta à qual tenciono responder nos próximos dias, aqui neste blog. Estou a ler "As Cinquenta Sombras de Grey", o grande sucesso literário do ano, uma história sobre como um homem dominador atrai e seduz uma rapariga virgem e a transporta para um universo de prazer sexual radical, com muitas algemas e chicotes pelo caminho. Como ainda não terminei o livro, não quero dar já uma opinião, apenas me fico pelas perguntas e por uma constatação, a de que um livro destes só podia ser escrito por uma mulher, e com um ponto de vista feminino. Se fosse um homem dominador a escrever, as feministas e muitas mulheres dariam cabo dele, chamando-lhe porco, sexista, maligno e muito mais. Mas, como é uma mulher a escrever, há uma certa condescendência nestes temas. Regresso à minha pergunta inicial: será que as mulheres gostam de homens dominadores? Pelo que tenho visto e ouvido, parece-me que sim, que gostam de homens que mandem nelas, que lhes saibam dar ordens, que as subjuguem, e esse é um dos segredos do sucesso de Grey e dos seus brinquedos. Mas amanhã falo mais sobre isto...

publicado por Domingos Amaral às 12:39 | link do post | comentar | ver comentários (22)
 

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